Jekyll e Hyde: a relação de opostos na psique
Palavras-chave:
cisão psíquica, infamiliar, sombra, posição esquizoparanoide, literatura e psicanáliseResumo
Publicada em 1886, a novela O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, antecede em mais de uma década a constituição da psicanálise e, ainda assim, formula com rara precisão o problema da divisão do sujeito. Este artigo examina a narrativa de Stevenson como modelo literário da cisão psíquica, confrontando-a com três linhagens teóricas: a freudiana, centrada no recalque, no infamiliar e na pulsão de morte; a junguiana, centrada na sombra, na persona e na individuação; e a kleiniana, centrada na cisão de objeto e na posição esquizoparanoide. O procedimento é o de revisão narrativa de literatura, de natureza teórico-conceitual. Argumenta-se que o destino de Jekyll não decorre da existência de uma parte má, mas da tentativa de resolver a ambivalência por separação em vez de integração, e que a autonomia progressiva de Hyde figura com exatidão o que a clínica descreve como retorno do recalcado. Conclui-se que organizar a vida psíquica em duas correntes mutuamente exclusivas, negligenciando uma delas, não suprime o conflito: desloca-o para formas de expressão cada vez menos governáveis.
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