O dragão e a sombra: figuração da imagem arquetípica e o estatuto do conteúdo recusado na psicologia analítica
Palavras-chave:
sombra, imagem arquetípica, William Blake, psicologia analítica, símboloResumo
A sombra é correntemente exposta por meio de inventários: listas de traços que o sujeito recusa em si. Este artigo sustenta que esse procedimento falha por razão estrutural e propõe outro eixo de leitura. Se o arquétipo é, em Jung, forma vazia — disposição a produzir imagens, e não imagem já dada —, então a sombra enquanto arquétipo não é representável, e o que se encontra na experiência é sempre uma figura que a preenche. Segue-se que o acesso ao conteúdo recusado não se dá pelo conceito, mas pela imagem que o figura: a personagem do sonho, a criatura do conto, a obra plástica. Reconstitui-se a distinção entre arquétipo e imagem arquetípica apenas no que ela exige para essa tese; delimita-se a sombra por contraste com o recalque freudiano, mostrando que a diferença decisiva não está no conteúdo, mas no destino do que foi excluído — retorno sintomático em Freud, personificação em Jung; e examina-se, como caso, a aquarela O grande dragão vermelho e a mulher vestida de sol, de William Blake, cujo dragão reúne monstruosidade e soberania sem permitir redução a alegoria do mal. Deriva-se daí uma regra técnica: deter-se na imagem antes de traduzi-la em atributo, porque a tradução prematura devolve o paciente à autodescrição que produziu a exclusão.
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