O dragão e a sombra: figuração da imagem arquetípica e o estatuto do conteúdo recusado na psicologia analítica

Autores

  • Jean Ives Marinielli Salustiano Psicanalista clínico, Brasil Autor

Palavras-chave:

sombra, imagem arquetípica, William Blake, psicologia analítica, símbolo

Resumo

A sombra é correntemente exposta por meio de inventários: listas de traços que o sujeito recusa em si. Este artigo sustenta que esse procedimento falha por razão estrutural e propõe outro eixo de leitura. Se o arquétipo é, em Jung, forma vazia — disposição a produzir imagens, e não imagem já dada —, então a sombra enquanto arquétipo não é representável, e o que se encontra na experiência é sempre uma figura que a preenche. Segue-se que o acesso ao conteúdo recusado não se dá pelo conceito, mas pela imagem que o figura: a personagem do sonho, a criatura do conto, a obra plástica. Reconstitui-se a distinção entre arquétipo e imagem arquetípica apenas no que ela exige para essa tese; delimita-se a sombra por contraste com o recalque freudiano, mostrando que a diferença decisiva não está no conteúdo, mas no destino do que foi excluído — retorno sintomático em Freud, personificação em Jung; e examina-se, como caso, a aquarela O grande dragão vermelho e a mulher vestida de sol, de William Blake, cujo dragão reúne monstruosidade e soberania sem permitir redução a alegoria do mal. Deriva-se daí uma regra técnica: deter-se na imagem antes de traduzi-la em atributo, porque a tradução prematura devolve o paciente à autodescrição que produziu a exclusão.

Referências

BLAKE, W. O casamento do céu e do inferno (1790). São Paulo: Hedra, 2005.

BUTLIN, M. The paintings and drawings of William Blake. New Haven: Yale University Press, 1981.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 4-5. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. O inconsciente (1915a). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 165-222.

FREUD, S. A repressão (1915b). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 147-162.

FREUD, S. O ego e o id (1923). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 23-83.

FRYE, N. Fearful symmetry: a study of William Blake. Princeton: Princeton University Press, 1947.

HILLMAN, J. Re-vendo a psicologia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Obras completas, v. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2011.

JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Obras completas, v. 9/2. Petrópolis: Vozes, 2012.

JUNG, C. G. A natureza da psique. Obras completas, v. 8/2. Petrópolis: Vozes, 2013.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

VON FRANZ, M.-L. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulus, 1985.

ZWEIG, C.; ABRAMS, J. (org.). Ao encontro da sombra: o poder oculto do lado negro da natureza humana. São Paulo: Cultrix, 1991.

Downloads

Publicado

27/10/2025 — Atualizado em 30/04/2026

Edição

Seção

Ensaios Teóricos

Categorias

Como Citar

O dragão e a sombra: figuração da imagem arquetípica e o estatuto do conteúdo recusado na psicologia analítica. (2026). Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais, 4(1), 34-40. https://editorial.interapia.org/index.php/interapia/article/view/27

Artigos Semelhantes

1-10 de 25

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.