Amor fati e a posição do sujeito diante do que não escolheu: alcance e limites de uma aproximação entre Nietzsche e a psicanálise
Palavras-chave:
amor fati, Nietzsche, psicanálise, desejo, afirmaçãoResumo
Este artigo examina a fórmula nietzschiana do amor fati e interroga em que plano ela pode ser aproximada da posição que a psicanálise atribui ao sujeito diante daquilo que não escolheu. O percurso reconstitui a formulação da fórmula em A gaia ciência, em Ecce homo e em Nietzsche contra Wagner, mostra sua dependência da hipótese do eterno retorno e a distingue das noções com que é correntemente confundida — resignação, conformismo, otimismo e aceitação passiva do sofrimento —, lembrando que Nietzsche a opõe explicitamente ao ressentimento. Em seguida, reconstitui três operações psicanalíticas convocadas pela literatura que faz a aproximação: a elaboração do luto em Freud, a insistência da repetição para além do princípio do prazer e a ética do desejo formulada por Lacan no Seminário 7. Sustenta-se que a aproximação não se sustenta no plano da equivalência conceitual — afirmar o necessário não é elaborar a perda, não é assumir a castração e não é o não ceder de seu desejo —, mas se sustenta no plano formal da posição do sujeito diante do que lhe foi imposto e não escolhido. Argumenta-se, por fim, que transformar a fórmula em prescrição terapêutica psicologiza a filosofia e empobrece ambos os campos.
Referências
BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 163-171.
FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 245-263.
FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 13-75.
FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 67-148.
FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 23. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 225-270.
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 807-842.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MARTON, S. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.
NIETZSCHE, F. O caso Wagner: um problema para músicos; Nietzsche contra Wagner: dossiê de um psicólogo. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
NIETZSCHE, F. Ecce homo: como alguém se torna o que é. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Categorias
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Viviane Nascimento de Carvalho Freitas

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
Termos da Licença
Todos os artigos publicados na Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais estão licenciados sob a:
Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0)
Isso significa que os autores mantêm os direitos autorais sobre suas obras e concedem à revista o direito exclusivo de primeira publicação, permitindo que terceiros compartilhem, distribuam e reutilizem o conteúdo, desde que:
Seja atribuída autoria apropriada, com citação clara da revista e dos autores;
O uso seja exclusivamente não comercial;
Em caso de adaptações ou transformações, a fonte original seja igualmente mencionada.
É expressamente vedado o uso comercial do conteúdo sem autorização prévia e por escrito dos autores e da equipe editorial da revista.
Citação recomendada:
SOBRENOME, Nome. Título do artigo. Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais, v. X, n. Y, p. XX–XX, mês/ano.
Disponível em: [link para o artigo].
Licenciado sob CC BY-NC 4.0.