A interpretação dos sonhos e o legado freudiano na psicanálise contemporânea: do conteúdo latente ao trabalho de construção
Palavras-chave:
Freud, interpretação dos sonhos, trabalho do sonho, realização de desejo, método psicanalíticoResumo
Este artigo reexamina A interpretação dos sonhos (1900) e discute o alcance do legado freudiano sobre o sonho na psicanálise contemporânea. Sustenta-se que a permanência dessa obra não decorre da sobrevivência de suas teses substantivas, mas da invenção de um procedimento: o sonho deixa de ser signo a ser lido num código e passa a ser texto a ser produzido no trabalho associativo do analisando. Três operações conceituais organizam o percurso. A primeira recupera a distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente, frequentemente reduzida à oposição entre aparência e significado oculto, e mostra que o latente não preexiste à análise como mensagem cifrada. A segunda reconstitui as quatro operações do trabalho do sonho — condensação, deslocamento, consideração à figurabilidade e elaboração secundária — e examina o efeito específico de cada uma sobre o material manifesto e sobre as condições da interpretação. A terceira isola a tese de 1900 segundo a qual todo sonho realiza um desejo e acompanha sua revisão em 1920, quando os sonhos traumáticos obrigam Freud a reconhecer uma repetição que não se deixa reduzir à satisfação disfarçada. Conclui-se que o legado operativo da obra está no método, e que o diálogo com a neuropsicanálise ilumina a ancoragem motivacional do sonhar sem restituir a teoria do conteúdo latente.
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