Reconhecimento e identificação: o sujeito entre a dialética hegeliana e o estádio do espelho lacaniano
Palavras-chave:
Hegel, Lacan, reconhecimento, estádio do espelho, alienaçãoResumo
Este artigo examina a aproximação, recorrente na literatura psicanalítica de língua portuguesa, entre a dialética do reconhecimento exposta por Hegel na Fenomenologia do espírito e o estádio do espelho formulado por Lacan. Sustenta-se que a aproximação é legítima e historicamente fundada — a mediação de Kojève, cujo seminário Lacan frequentou nos anos 1930, é incontornável —, mas que ela se torna estéril quando converte correspondência em sinonímia. Três termos concentram o risco: sujeito, saber e desejo. Em Hegel, designam momentos de um movimento que tende à reconciliação; em Lacan, nomeiam uma divisão sem síntese, um saber que não se sabe e uma falta estruturalmente insatisfazível. O percurso reconstitui primeiro a figura do senhorio e da servidão em seus próprios termos, depois o estádio do espelho como teoria da identificação imaginária, e em seguida confronta os três conceitos sob dupla acepção. Argumenta-se que reconhecimento e identificação não são operações homólogas: o primeiro é intersubjetivo e dialético, o segundo é especular e produz méconnaissance. Conclui-se que a aproximação rende como instrumento de leitura da divisão subjetiva e da transferência, mas não autoriza supor, na clínica, um termo em que a divisão se resolva.
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