A depressão como destino da perda: a matriz freudiana e suas reformulações pós-freudianas
Palavras-chave:
depressão, melancolia, luto, relações objetais, clínica psicanalíticaResumo
Este artigo reconstitui a leitura psicanalítica da depressão a partir da tese inaugural de Luto e melancolia — a de que o quadro melancólico resulta não da perda em si, mas de um destino particular dado à perda — e acompanha as reformulações que essa tese recebeu ao longo do século XX. Examinam-se, na matriz freudiana, três operações encadeadas: a identificação narcísica com o objeto perdido, a retirada do investimento para o ego e o redirecionamento da hostilidade contra a instância assim constituída. Sobre esse fundo, discutem-se quatro reformulações: a de Abraham, que situa a ambivalência oral na origem do quadro; a de Klein, que converte a perda em posição estrutural do desenvolvimento; a de Bowlby, que a reinscreve na história real das separações; e a de Kohut e Winnicott, que a deslocam para a falha do ambiente na sustentação do self. Argumenta-se que essas formulações não são variantes de uma mesma hipótese, mas respostas divergentes a uma pergunta comum, e que a divergência tem consequências diretas sobre a direção do tratamento. Conclui-se que o aporte específico da psicanálise ao campo da depressão não é etiológico nem concorrente do diagnóstico descritivo, mas consiste em restituir à queixa depressiva a dimensão de um conflito.
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