A transferência na psicose: estatuto do laço e consequências para o manejo clínico
Palavras-chave:
psicose, transferência, manejo clínico, Freud, LacanResumo
Este artigo examina o estatuto e o manejo da transferência na clínica das psicoses, campo em que o conceito encontra seu limite de validade e exige reformulação. Parte-se da objeção freudiana — fundada na teoria do narcisismo — segundo a qual o psicótico, por haver retirado o investimento libidinal dos objetos, seria inacessível à transferência, e reconstitui-se o percurso pelo qual essa objeção foi deslocada sem ser simplesmente descartada. Argumenta-se que o laço transferencial se estabelece de fato na psicose, mas segundo uma economia distinta: não se organiza em torno do sujeito suposto saber, não se sustenta na suposição de um sentido recalcado a decifrar e não tolera a interpretação como operação central. Examinam-se as modalidades mais regulares desse laço — erotomaníaca, persecutória e de identificação projetiva — e os riscos iatrogênicos associados a cada uma. Sustenta-se que a posição de secretário do alienado, formulada por Lacan, e a função de regulação do gozo descrita por Soler não são alternativas excludentes, mas dois tempos de um mesmo manejo. Conclui-se que a especificidade clínica da psicose não reside na ausência de transferência, mas na necessidade de que o analista ocupe um lugar que não convoque o enigma.
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