A realidade em colapso: uma leitura psicanalítica do descolamento da realidade na era dos dispositivos digitais
Palavras-chave:
psicanálise, real, imaginário, capitalismo de vigilância, cultura digitalResumo
Este artigo examina a tese de que o uso intensivo de dispositivos digitais produz um descolamento da relação do sujeito com a realidade, e de que esse descolamento não é efeito colateral da tecnologia, mas resultado de uma arquitetura econômica que dele extrai valor. O percurso é teórico-conceitual. Recupera-se a distinção lacaniana entre real, simbólico e imaginário e a análise freudiana da suspensão do juízo crítico na formação de massa; examinam-se em seguida três descrições da mediação técnica da experiência — o espetáculo em Debord, o simulacro em Baudrillard e o capitalismo de vigilância em Zuboff — e o diagnóstico de Han sobre o regime de positividade. Sustenta-se que a articulação entre essas tradições é legítima, mas exige explicitação: crítica cultural, economia política e psicanálise não descrevem o mesmo objeto, e termos homônimos como desejo e real recebem em cada uma definições não intercambiáveis. O rendimento propriamente psicanalítico não está em diagnosticar a cultura, e sim em localizar o que, no dispositivo digital, incide sobre a economia do desejo: a oferta contínua de objetos que suspende a inscrição da falta. O colapso em questão não é o da realidade, mas o do trabalho simbólico que a sustenta como compartilhada.
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