Freud e o problema da subjetividade: do cogito cartesiano ao sujeito dividido

Autores

  • Francisco Morais dos Santos Psicanalista clínico, Brasil Autor

Palavras-chave:

subjetividade, psicanálise, Freud, inconsciente, filosofia

Resumo

Este artigo examina o lugar da psicanálise freudiana na história filosófica do conceito de subjetividade. A hipótese sustentada é que Freud não se limitou a acrescentar um novo objeto — o inconsciente — a um sujeito previamente definido pela filosofia moderna, mas deslocou o próprio eixo em torno do qual esse sujeito havia sido pensado desde Descartes. O percurso reconstitui a linhagem que vai do cogito cartesiano ao sujeito transcendental kantiano e, dali, às críticas de Schopenhauer e Nietzsche à primazia da razão; analisa em seguida a formulação freudiana do inconsciente e a segunda tópica, mostrando em que medida radicalizam aquelas críticas em vez de herdá-las; e confronta, por fim, o descentramento freudiano com as objeções de Foucault e Derrida e com as leituras afirmativas de Marcuse e Ricoeur. Argumenta-se que a contribuição decisiva de Freud não reside na afirmação da existência de processos psíquicos não conscientes, já disponível antes dele, mas na demonstração de que esses processos obedecem a uma lógica própria, conflitiva e interpretável — o que converte a opacidade do sujeito a si mesmo em objeto de método, e não em limite do conhecimento.

Referências

DERRIDA, J. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1978.

DESCARTES, R. Descartes. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores).

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 4-5. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. O inconsciente (1915). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 165-222.

FREUD, S. Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 143-153.

FREUD, S. O eu e o id (1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 65-148.

FREUD, S. Esboço de psicanálise (1940). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 23. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 153-221.

KANT, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

KEHL, M. R. et al. Por que Freud hoje? São Paulo: Zagodoni, 2017.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, J. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MARCUSE, H. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

RICOEUR, P. Da interpretação: ensaio sobre Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

WARBURTON, N. Uma breve história da filosofia. Porto Alegre: L&PM, 2014. ŽIŽEK, S. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Downloads

Publicado

12/20/2023

Como Citar

Freud e o problema da subjetividade: do cogito cartesiano ao sujeito dividido. (2023). Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais, 1(1), 19-25. https://editorial.interapia.org/index.php/interapia/article/view/22

Artigos Semelhantes

1-10 de 26

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.