A música como formação do inconsciente: escuta, sublimação e simbolização
Palavras-chave:
música, inconsciente, sublimação, simbolização, estética psicanalíticaResumo
Este ensaio examina a hipótese de que a canção pode ser lida como formação do inconsciente, ao lado do sonho, do chiste e do lapso, e discute o que essa aproximação permite e o que ela não autoriza afirmar. O percurso reconstitui quatro leituras psicanalíticas da experiência musical — a sublimação em Freud, o símbolo e a individuação em Jung, a voz como objeto e o real em Lacan, o espaço potencial e o objeto transicional em Winnicott — e as confronta com um conjunto reduzido de canções da música popular brasileira e da trilha de cinema, tomadas como material de análise textual e não como ilustração. Sustenta-se que a música opera sobre registros afetivos anteriores à palavra e que essa anterioridade, longe de conferir à escuta musical um acesso privilegiado ao recalcado, é exatamente o que torna suas interpretações menos controláveis. Conclui-se que a leitura psicanalítica de obras musicais produz hipóteses sobre a obra e sobre o intérprete que a escuta, não sobre a vida psíquica de seus autores, e que o rendimento clínico da proposta depende de manter essa distinção.
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