A alegoria da caverna e seus deslocamentos em O quarto de Jack: imagem, função materna e passagem ao princípio de realidade
Palavras-chave:
alegoria da caverna, Platão, psicanálise e cinema, constituição do eu, princípio de realidadeResumo
Este ensaio examina de que modo a alegoria da caverna, exposta por Platão no livro VII de A República, opera como chave de leitura do filme O quarto de Jack (Room, 2015), dirigido por Lenny Abrahamson a partir do romance homônimo de Emma Donoghue. Sustenta-se que a correspondência entre as duas obras não se esgota na semelhança situacional entre o cativeiro e a prisão subterrânea, e que seu interesse teórico reside justamente nos pontos em que a analogia se desloca. Três deslocamentos são identificados e desenvolvidos: a inversão do estatuto da imagem, uma vez que, no filme, é o simulacro televisivo que recebe o índice de irrealidade enquanto o cárcere é afirmado como mundo; a presença, inexistente em Platão, de uma função materna que é simultaneamente cativa e instituidora do mundo em que a criança habita; e a conversão da saída em travessia psíquica, legível nos termos freudianos da passagem ao princípio de realidade e do trabalho de luto. Conclui-se que a alegoria permanece operante como teoria da reorientação do olhar, mas exige, para dar conta da narrativa fílmica, a mediação de conceitos psicanalíticos relativos à constituição do eu na dependência do outro.
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