A formação do eu no estádio do espelho: constituição e alienação da identidade na psicanálise lacaniana
Palavras-chave:
estádio do espelho, formação do eu, identificação imaginária, alienação, psicanálise lacanianaResumo
Este ensaio examina a formação do eu no estádio do espelho e as consequências dessa formulação para a concepção psicanalítica da identidade. O percurso reconstitui primeiro a elaboração freudiana — o eu como objeto de investimento libidinal em Sobre o narcisismo (1914) e como precipitado de identificações em O eu e o id (1923) — e mostra em que ponto ela deixa em aberto o problema da origem da unidade do eu. Examina em seguida a tese de Lacan (1949): a criança, ainda em desamparo motor, antecipa na imagem especular uma totalidade corporal que não possui, e é dessa identificação que o eu se constitui. Sustenta-se que a tese não descreve uma etapa cronológica do desenvolvimento, mas uma operação lógica cujo efeito é permanente, e que a identidade daí resultante é ficção estruturante: organiza a experiência ao preço de uma alienação constitutiva. Discutem-se três objeções — a leitura desenvolvimentista, a suposta dissolução da responsabilidade do sujeito e a conversão da tese em diagnóstico de época — e delimita-se o que a formulação autoriza afirmar na clínica e o que não autoriza.
Referências
DUNKER, C. I. L. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 4-5. Rio de Janeiro: Imago, 1996a.
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. p. 77-108.
FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996c. p. 243-263.
FREUD, S. O ego e o id (1923). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996d. p. 13-80.
LACAN, J. O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a. p. 96-103.
LACAN, J. A agressividade em psicanálise (1948). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b. p. 104-126.
LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998c. p. 238-324.
LACAN, J. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998d. p. 496-533.
LACAN, J. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação (1958-1959). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ROUDINESCO, E. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015. ŽIŽEK, S. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Categorias
Licença
Direitos autorais (c) 2025 Priscila dos Santos

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
Termos da Licença
Todos os artigos publicados na Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais estão licenciados sob a:
Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0)
Isso significa que os autores mantêm os direitos autorais sobre suas obras e concedem à revista o direito exclusivo de primeira publicação, permitindo que terceiros compartilhem, distribuam e reutilizem o conteúdo, desde que:
Seja atribuída autoria apropriada, com citação clara da revista e dos autores;
O uso seja exclusivamente não comercial;
Em caso de adaptações ou transformações, a fonte original seja igualmente mencionada.
É expressamente vedado o uso comercial do conteúdo sem autorização prévia e por escrito dos autores e da equipe editorial da revista.
Citação recomendada:
SOBRENOME, Nome. Título do artigo. Interapia – Revista de Clínica, Cultura e Ciências Mentais, v. X, n. Y, p. XX–XX, mês/ano.
Disponível em: [link para o artigo].
Licenciado sob CC BY-NC 4.0.